Material de Estudo Dança do Ventre

Dança do ventre e danças folclóricas  ( elementos ) por  Aricelma Medrei

1- DANÇA COM VÉUS

O véu está presente em várias passagens de textos que falam sobre a dança dos povos do antigo Egito, por isso é previsível que este seja muito usado pelas bailarinas na atualidade. Quando se fala sobre a importância e o significado do véu, devemos lembrar que os movimentos da Dança do ventre estão relacionados aos animais, às plantas, aos símbolos da mitologia egípcia e aos quatro elementos da natureza. Portanto, podemos relacionar o véu com o elemento ar e os ventos que sopram no deserto.

A dança com véu pode variar de acordo com a intenção e criatividade da bailarina. Pode-se dançar com um único véu, com dois ou até nove véus. Algumas bailarinas fazem uso do véu aliado aos snujs, querendo assim demonstrar sua habilidade com os acessórios da dança.


1.1- DANÇA COM SETE VÉUS

Sua origem é muito especulada e já foi associada à passagem bíblica em que Salomé pede a cabeça de João Batista. Atualmente, é muito comum ver a dança ser vinculada aos sete chakras corporais. Os véus  teriam as cores representativas dos chakras, simbolizando sua transformação.

A interpretação mais bela, na opinião da maioria dos estudiosos seria a de que esta tivesse sido originada de uma antiga lenda babilônica que dizia: a Deusa Ishtar descia ao mundo subterrâneo e lá permanecia  por seis meses. A terra morria e nada nascia. Mas quando seu marido Tammuz descia para vê-la, nos outros seis meses do ano, a terra renascia e todos celebravam. Ishtar, ao descer, passava por sete portais e em cada um deles deixava um de seus atributos: saúde, beleza, poder…, até ficar  nua e indefesa, o que simbolizava a fragilidade de  todos os mortais. Para cada portal atravessado pela deusa, a bailarina se despe de um véu, executando um movimento.


2- DANÇA COM CIMITARRA/ESPADA

Dança com várias versões para sua origem. A primeira seria que esta dança servia para homenagear a Deusa Neit, mãe de Ra, deusa da guerra, que destruía os inimigos e abria os caminhos.

Uma segunda versão conta que a dança com cimitarra surgiu nas tabernas onde os soldados, após seus dias de luta iriam descansar e as mulheres da casa pegavam suas espadas e dançavam. A terceira versão deriva do Arjã, dança milenar que só era executada por homens, geralmente os velhos das aldeias. Simbolizava a vitória sobre os inimigos e a conquista de territórios. Com o passar do tempo, as mulheres incorporaram à sua dança a cimitarra, espécie de espada com aponta recurvada.   A dança com espada simboliza poder e força.


3- DANÇA COM PUNHAL

Versão da dança com cimitarra. Quase nada se sabe sobre sua origem, mas alguns acreditam que, para os egípcios, era uma homenagem a Deusa Selkis, que simbolizava a morte e a transformação. Numa segunda versão, essa dança era realizada pela odalisca predileta do Sultão, para mostrar seu poder às outras mulheres do Harém. Ela tomava do Sultão seu punhal e dançava diante de todos. Com isso, ficava provado que ele tinha total confiança nela.


4- TAHTIB OU SAIDI

Dança beduína do Sul do Egito, originaria dos nômades do deserto. Inicialmente, era dançada por homens. O nome correto seria Tahtib, mas é comumente chamada de Saaidi, pois se utiliza esse ritmo em sua execução. É dançada com um cajado nas mãos, conhecido como shoumas e este serve para fazer “acrobacias”, que é o ponto forte da dança, representando uma espécie de luta, onde os homens atacam ou defendem-se de golpes imaginários. Por tradição, em algumas aldeias, os bastões eram talhados com a história de suas tribos, servindo a dança também para honrar as conquistas da família. Aos poucos, as mulheres foram assimilando  movimentos dessa dança,  criando a Raks Al Assaya, versão exclusivamente feminina.


4.1- RAKS EL ASSAYA

Também conhecida como dança do Bastão ou da Bengala. Seria uma versão feminina para a dança Tahtib. Os movimentos são graciosos e delicados e as mulheres manejam o bastão demonstrando suas habilidades com o objeto, usando-o também para emoldurar o corpo durante a execução dos movimentos.


5- DANÇA COM SNUJS

Snuj é um instrumento rítmico que serve, quando tocado pela bailarina, para acompanhar o ritmo da música e as batidas de sua dança. O snujs, ou címbalos, são 4 pratilhos de metal presos nos polegares e dedos médios de ambas as mãos, que devem ser tocados leve e rapidamente, fazendo com que o som seja próximo ao de sinos de igreja. Pode ser tocado livremente, seguindo a música dançada, ou dentro da notação específica do ritmo em questão. Os ritmos mais conhecidos são: Ayyoub, Malfouf, Baladi, Saaidi, Maqsoum, Soudi, Masmoudi Kabir, Chaftatalli, entre outros.

As bailarinas com maior experiência costumam florear ou mesmo tocar durante a sua dança. Mas isso não é regra: os snujs podem ser tocados só em alguns momentos, acompanhando uma seqüência, a estrofe da música ou algumas batidas do derback. Uma outra possibilidade é da bailarina dançar ao som dos snujs, tocados por um músico profissional.

Pode parecer difícil, mas com treino e seguindo algumas regras, como suspender o toque em momentos de Taksim, tocá-los sempre alternados, observar as mudanças de ritmo dentro da música, acompanhá-la dentro do compasso e finalizar no momento correto, a bailarina só trará mais brilho à sua performance.


6- DANÇA COM DAFF

O daff é um pandeiro árabe que tem o som um pouco diferente do nosso pandeiro. Por ser pequeno e fácil de lidar, pode ser usado pela bailarina para acompanhar a música. Os ritmos mais rápidos são perfeitos para serem acompanhadas pelas batidas do pandeiro no corpo da bailarina. As danças com instrumentos são sempre muito alegres e festivas.


7-  SOLO DE DERBAKE

Derbake é um instrumento de percussão, similar à tabla. Enquanto o músico executa o solo desse instrumento, a bailarina acompanha as batidas da percussão com o corpo. O elemento coreográfico típico das danças para o Solo de Derbake é o shimie, acompanhado de movimentos de batida (solares e lunares).


8- RAKS AL BALAAS/JARRO

Conhecida também como dança do Nilo, acredita-se que sua origem tenha relação com as cerimônias à beira do        rio, pedindo que ele inundasse suas margens para fertilizar as terras, beneficiando nas plantações e colheitas. Em outra versão, essa dança seria a representação da vida dos povos de deserto, onde a bailarina faz o trajeto de uma nômade que sai de sua tenda em direção ao oásis com o intuito de buscar água. No caminho, ela executa movimentos com o jarro como: parar para descansar, refrescar-se, pegar a água e, finalmente, voltar à tenda. Para dançá-la a bailarina devera usar roupas que cubram todo o corpo, imitando o traje das beduínas, inclusive fazendo uso dos chadores ( véus que cobrem o rosto). É necessário habilidade, equilíbrio e boa expressão facial.

O uso do jarro também pode ser visto na Fallahi, dança egípcia camponesa.


9-   RAKS AL NACHAAT/ KHALEEGE

Dança folclórica originária do Golfo Pérsico, área da Península Arábica que engloba países como Arábia Saudita, Kuwait, Emirados, Oman e outros. O nome da dança vem exatamente de suas origens: Khaleege, em árabe, significa golfo. Também é conhecida como Raks el Nachaat. É comumente vista em festas familiares desde a antiguidade até os dias de hoje. Para dançá-la, as bailarinas usam longos vestidos largos e bordados, que é um acessório importantíssimo nos movimentos. A execução da dança traz uma simples marcação para os pés, sendo o ponto forte da apresentação, o trabalho de mãos e principalmente giros vigorosos de cabeça e cabelos, formando, também a figura de um oito. A música para o Khalleege também é diferenciada: o ritmo utilizado é o saudi.


10- DABKE

Desde o tempo dos fenícios (cerca de 4000ªC.), a cobertura de telhados planos nas casas do Oriente Médio era feita de ramos cobertos com lama. Na mudança de estação entre o outono e o inverno, a dilatação proporcionava rachaduras nessa cobertura, fazendo com que as chuvas de inverno trouxessem vazamentos. Por isso, os proprietários das casas pediam ajuda aos vizinhos para recompor a mistura. Todos subiam ao telhado para recompactar a lama, fazendo com que penetrasse em todas as frestas, a fim de evitar os vazamentos.

Com o acompanhamento de um derbake e uma flauta mijwiz, os homens se distraiam no ritual das batidas e assim podiam compactar os telhados de suas aldeias e das aldeias vizinhas, dançada por toda a família. Nas festas árabes, essa dança acaba por contagiar a todos. Mesmo quem não faz parte da colônia, ou não conhece a dança, entra no clima pela alegria e facilidade da execução dos passos. É uma dança de origem libanesa.


11 – MELEAH LAF

Meleah laf significa lenço enrolado. Esta dança nasceu no Egito, mais especificamente no subúrbio do Cairo. Nos anos 20, surgiu uma moda, em que as mulheres começaram a usar o meleah, grande lenço preto, enrolado ao corpo. A moda passou, mas as garotas do subúrbio até hoje continuam a usar seus lenços.

A amarração padrão do meleah passa o véu por baixo dos seios, prendendo uma das pontas embaixo do braço. Do outro lado o véu passa por cima da cabeça ou do ombro e é seguro pela mão. Durante a dança, a bailarina “puxa” o meleah para que este fique justo ao corpo e ressalte suas formas femininas, principalmente o quadril. No decorrer da música, a bailarina solta o lenço e dança até o fim com ele nas mãos. É comum vê-las dançando com um chador,  quase sempre de crochê, cobrindo o rosto, que também pode ser tirado no decorrer da apresentação. Outra observação interessante é que a dançarina pode mascar chiclete durante a dança, pois tradicionalmente, as egípcias costumam mascar goma de miske ao dançar.

O jeito de andar, o lenço e o chador cobrindo o que mais tarde será descoberto, o ato de mascar chiclete, a música, sempre muito alegre e festiva, são fatores importantes que caracterizam o jeito das garotas baladi do Egito. É uma dança cheia de estereótipos e é necessário charme e uma pitada de ousadia de quem interpreta.


12- RAKS EL SHEMADAN

Raks el Shemadan é o nome egípcio para o que conhecemos como a dança do Candelabro. Muito comum em festas de casamento ou aniversário, até hoje serve para celebrar a vida e a união entre as pessoas. Durante as comemorações de um casamento, por exemplo, a dançarina e suas velas simbolizam a luz que irá abrir e iluminar o caminho do novo casal. Essa dança é muito comum no Egito.


13- DANÇA COM VELAS

Também conhecida como Dança das Tacinhas, deriva da Raks el Shemadan. A bailarina dança com tacinhas, pequenos castiçais ou com velas nas mãos. Durante a dança, as taças são equilibradas em partes do corpo da bailarina, como coxas, barriga, etc. Tem a mesma simbologia que a dança do castiçal, sendo comumente vista em casamentos, batizados e aniversários. Serve para iluminar o caminho dos homenageados. Esta versão não é considerada folclórica pelos povos do Oriente.


OUTRAS DANÇAS FOLCLÓRICAS

    A dança do ventre caiu no gosto do mundo inteiro e por isso acabamos descobrindo no folclore dos povos do Oriente várias outras danças,  que já incorporamos ao nosso “acervo”. No entanto, algumas modalidades raramente podem ser aprendidas ou mesmo vistas por nós, ocidentais, geralmente, por terem um caráter religioso ou carregarem traços culturais muitos fortes.

DANÇA GAWAZZE

Ghawazee, para os egípcios, significa ciganas. Assim eram chamadas as dançarinas do ventre, no Egito Antigo, que se apresentavam nas ruas, também recebendo o nome deAs Dançarinas do Povo. As ghawazee realizam esta dança de uma maneira toda especial, com trajes folclóricos, pintura tribal dos rostos, turbantes e lenços amarrados à cabeça e músicas tradicionais, com poucos  instrumentos. Hoje em dia, poucas ciganas tentam ganhar a vida dançando ou dando aulas no Egito, pois os maiores hotéis e casas noturnas do Cairo privilegiam as bailarinas de dança do ventre hollywodianas.

No entanto, surgiu nos Estados Unidos um movimento muito forte, tentando buscar as raízes da dança dessas ghawazee. Grupos como The Ghawazee Troupe, The Fat Chance Belly Dance e The Pink Gipsy Groupe, estão buscando nessa forma de dançar uma nova visão da Dança do Ventre. Associando a Dança Ghawazee à outras danças orientais, formam o que chamam de Tribal Fusion Style.


DANÇA COM FLORES

Realizada na época da primavera, quando as camponesas egípcias iam trabalhar na colheita das flores. Para amenizar o trabalho, elas cantavam e dançavam. Mais adiante, tornou-se uma dança comum nas festas populares. Enquanto dança, a bailarina entrega as flores de seu cesto aos espectadores. As Ghawazee também realizam a mesma dança, denominada Dança do Cesto. Neste caso, a dançarina acrescenta algumas características próprias, como equilibrar o cesto de flores na cabeça, mexer suas saias rodadas enquanto dança ou prender uma flor entre os dentes, por exemplo.


DANÇA COM  LENCHINHOS

Sua origem parece vir do Norte da África. Ainda se encontram mulheres executando essa dança na Algéria, Marrocos e Tunísia. Para isso, utilizam-se dois lenços. A dança mantém movimentação básica dos pés e os lenços servem para serem agitados no ar, dando graça e movimento à dança. Numa variação, usa-se apenas um lenço, compartilhado por ambas as mãos. Enquanto dança, a bailarina usa o lenço num jogo de “esconder e revelar”, primeiro deixando visível apenas os olhos, depois o nariz, a boca, e usando-o como uma moldura para mostrar a movimentação de tronco ou quadril.


DANÇA GUEDRA

Dança ritual típica dos nômades do Deserto do Saara, aparecendo também na Mauritânia, Marrocos e Egito. Também é conhecida como a Dança da Benção dos Touaregs. É uma dança de transe, de origem religiosa, que tem por finalidade trazer satisfação e alegria plena àqueles que a praticam e/ou a assistem. Sua base é simples e a bailarina executa movimentos com as mãos, para as quatro direções norte, sul, leste e oeste, para os quatro elementos céu-acima, terra-abaixo, ar – para trás e água – para baixo ou simbolizando o tempo passa do trás, presente – para o lado e futuro – para frente). Outro movimento básico seria a benção oriental, quando a dançarina toca o estômago, o coração e a cabeça, emanando a energia da dança ao público. Para recuperar a energia emanada, a dançarina toca-se na direção do ombro, trazendo a vibração da platéia para si.

Inicia-se com o rosto coberto por um véu, que pode ser abandonado no decorrer da dança. Em certos momentos, a dançarina começa um balanço de cabeça para frente e para trás, geralmente brusco, fazendo voar suas tranças. Com grande freqüência, encerra-se a dança no chão. A roupa típica para dançar Guedra é o Kaftan, acompanhado do Haik, espécie de manto preso à frente do corpo por alfinetes e correntes. Acompanha adornos de cabeça e tranças reais ou postiças. A música usada são cânticos muçulmanos que podem durar até horas.


RAKS AL SENNIYYA

Raks al Senniyya, ou dança do chá, tem sua origem no Marrocos. Uma dança tradicional para esses povos, pode ser praticada por pessoas de ambos os sexos. Executa-se basicamente uma performance para a demonstração de equilíbrio e destreza. Os dançarinos geralmente balançam-se ao som da música, com uma bandeja de xícaras de chá apoiada na cabeça.


FELLAHA OU FALLAHI

Dança originária da região do alto Egito. Diferente do Tahtib, que tem como característica ser uma dança dos povos nômades, a Fellaha ou Fallahi vêm dos Fallahin, fazendeiros egípcios (camponeses). Fallahi significa “criado por um Fallahin”. Também o ritmo musical usado para esta dança recebe o nome de Fallahi. A dança simboliza um encontro, sendo dançada, em geral, por casais (ou grupos de mulheres e um homem). Conta a história de um rapaz que estava à procura do amor, e acaba encontrando uma jovem. No entanto, seu coração é volúvel. Surpresa com o comportamento dele, ela acaba dexando-o sozinho.

Numa outra forma, pode ser realizada apenas por mulheres, as quais dançam com jarros. O passo básico da Fallahi lembra o pas de valse do ballet clássico.


CHOUFOU EL ARBIYYA

Dança típica tunisiana, realizada apenas por mulheres. Nessa dança, elas mostram, com agilidade, suas habilidades de dançarina com batidas pélvicas e de quadris, enquanto mostram seus tornozelos ao público, para demonstrar que não usam o Khul-khaal ( espécie de tornozeleira) e que, assim sendo, não são casadas. Seria quase que uma dança de sedução, de moças solteiras em busca de um namorado. Durante o desenvolver desta, elas fazem mímicas como se estivessem se maquilando, ajeitando o vestido, ajudando umas às outras etc.


HAGGALAH

Originária da Líbia, porém muito dançada também no Egito, com maior freqüência em Mersa Matruh. A performance é executada por mulheres totalmente cobertas, ao som de palmas e cânticos masculinos, chamados Keffafeen. Tradicionalmente, a dançarina de haggalah deve apresentar-se para quatro homens e, dentre eles, escolher apenas um para o qual terminará sua dança. Quando escolher seu pretendente, este deverá laçá-la com seu turnante ou faixa. Numa versão mais moderna, grupos de mulheres dançam, alegremente, umas para as outras.


SULE KULE OU KARSILAMA CIGANA

Karsilama ou Karschilama é um ritmo de origem turca que nomina também a dança, é realizada pelas cengis, as mulheres ciganas da Turquia. Na dança, ao som das batidas do pandeiro, balançando suas saias rodadas, essas mulheres relembram suas origens, quem elas verdadeiramente são. Na Turquia, é provável que ainda se encontre verdadeiras Cengis dançando o Karsilama.

” Que a Deusa abra suas formosas asas sobre nossas cabeças, trazendo-nos saúde e harmonia , paz e alegria”